A mesa estava posta com pão, bolo e café quando os homens sentaram. Um serviu o copo do vizinho. Outro empurrou o prato para o meio. A casa foi alugada pela empresa que os contratou, e o café da manhã acontece todo dia antes de o turno começar. Menos de um mês antes daquela manhã, todos dormiam na calçada.

Em 2025, 75 pessoas em situação de rua concluíram os cursos profissionalizantes oferecidos na Casa da Cidadania, equipamento da Prefeitura de Campinas administrado pelo Instituto Há Esperança. Mais de 30% delas foram contratadas com carteira assinada. Em 3 de junho deste ano, uma quarta-feira, o Instituto formou a quinta turma, com 15 concluintes em elétrica predial, confeitaria, barbearia e informática.

Os cursos duram um trimestre e são definidos a partir de conversa com quem chega. “A gente bate um papo, vai criando um vínculo com a pessoa e vai entendendo de qual profissão ela veio”, afirmou Robson Teixeira Gondim, fundador do Instituto Há Esperança. Às vezes aparece alguém que trabalhou dez anos como eletricista e passou a década seguinte na rua. Às vezes aparece alguém que nunca foi eletricista e quer ser. As duas informações entram no desenho da turma seguinte.

Quem dá as aulas são profissionais contratados com recursos da parceria com a Prefeitura e voluntários que se apresentam.

A Casa da Cidadania fica na Rua Francisco Teodoro, 138, na Vila Industrial, Região Sul. É um serviço complementar da rede socioassistencial do município, ou seja, funciona ao lado dos equipamentos públicos e não no lugar deles. O Instituto Há Esperança assumiu a execução após participar de um processo de seleção aberto pela Prefeitura, no qual as organizações interessadas apresentam propostas e se comprometem com metas de alimentação, banhos, atendimento e oficinas.

“A parceria com o Instituto Há Esperança fortalece a rede de atendimento do município. É um trabalho construído de forma conjunta, somando a estrutura e as políticas públicas da Prefeitura à experiência da organização no acolhimento e no acompanhamento das pessoas em situação de rua”, declarou a secretária municipal de Desenvolvimento e Assistência Social, Vandecleya Moro.

O trabalho com pessoas em situação de rua é cofinanciado, o que significa que a maior parte do custo vem do orçamento municipal e o restante é bancado pela própria organização. As demais frentes do Instituto, voltadas a crianças e famílias, são mantidas por doadores.

Quem chega à Casa da Cidadania passa primeiro por um cadastro que segue direto para a rede pública de atendimento. Feito o registro, a pessoa tem acesso ao espaço de convivência, onde pode tomar banho, se alimentar, cortar o cabelo e se inscrever nas oficinas. A partir dali, passa a ser atendida tanto pelo Instituto quanto por qualquer outro equipamento do município.

Não existe prazo entre o primeiro contato e a contratação. “Pode ser que na primeira semana que ele chegou lá, se ele tiver apto, ele já é encaminhado para o mercado de trabalho”, explicou Robson. Estar apto, nesse caso, quer dizer ter documento, ter a escolaridade que a vaga exige e ter passado pelo treinamento de entrevista e convívio em equipe. Quando falta alguma dessas peças, o encaminhamento espera.

O Instituto não exige que a pessoa abandone o uso de drogas para ser indicada a uma vaga. “Na rua é muito difícil largar o vício. O trabalho faz parte do processo de largar o vício”, disse o fundador do Há Esperança.

“Nosso objetivo não é apenas oferecer um atendimento imediato, mas criar caminhos para que essas pessoas recuperem autonomia. A qualificação profissional, a documentação, o encaminhamento para vagas de emprego e o acompanhamento social fazem parte de um processo de reconstrução de vínculos e de projetos de vida”, afirmou Vandecleya Moro.

A aproximação com as empresas é recente. Até pouco tempo atrás, os formandos saíam da Casa da Cidadania e procuravam trabalho por conta própria. Hoje o Instituto vai até as empresas e oferece a mão de obra disponível, incluindo pessoas que nunca fizeram os cursos e já chegam com profissão.

Quatro empresas da região contratam trabalhadores indicados pelo Instituto: Unicon, WKM, Atlântica e Higiplan. Foi a Higiplan que contratou o grupo da casa alugada.

Nem toda conversa termina em contrato. “A gente já teve empresa que a gente foi apresentar o projeto e a empresa não quis porque era pessoa em situação de rua”, contou Robson Teixeira Gondim. Ele avalia que a resistência tem diminuído.

“O emprego pode representar um ponto de transformação importante para quem está reconstruindo a própria vida. Por isso, além de preparar essas pessoas para as oportunidades, é fundamental sensibilizar as empresas para que também façam parte desse processo de inclusão”, declarou Vandecleya Moro.

O acompanhamento continua depois da contratação. Quando a pessoa não consegue vaga em casa de passagem, unidade em que ela mora por período determinado enquanto reorganiza a vida, o Instituto aluga um imóvel, paga os primeiros meses e mobilia o lugar até o salário sustentar o aluguel. Até isso se resolver, o endereço que vai no currículo é o do próprio Instituto.

A parte mais difícil não é conseguir a vaga. “A dificuldade dela é realmente a ressocialização”, afirmou Robson Teixeira Gondim, referindo-se a horário, regra, pontualidade e convívio com quem tem outra rotina. Há quem não se adapte, peça demissão e volte para a rua.

“Vai precisar de uma, vai precisar de duas, vai precisar de três. Às vezes precisa de dez oportunidades para a pessoa poder engrenar”, disse. Quando alguém volta, o Instituto recomeça.

Além da Casa da Cidadania, o Instituto Há Esperança mantém trabalho em um albergue e em uma casa de passagem, ambos integrados à rede de atendimento do município, e um serviço para 200 crianças em contraturno escolar no Parque Oziel. Neste ano abriu uma escola de empreendedorismo voltada a mulheres que querem gerar renda própria. Entre voluntários e funcionários, são cerca de 60 pessoas.

Os encaminhamentos, porém, continuam saindo majoritariamente dos serviços públicos: o Serviço de Abordagem Social de Pessoas em Situação de Rua, que faz o contato nas ruas; os Centros POP, unidades de referência especializada; e o Samim, o albergue municipal, que oferece 120 vagas.

“O atendimento à população em situação de rua exige uma atuação em rede. Assistência social, saúde, trabalho e outros serviços precisam estar articulados para que cada pessoa seja atendida de acordo com suas necessidades e tenha condições reais de avançar para uma nova etapa”, afirmou Vandecleya Moro.

Como participar

A Casa da Cidadania fica na Rua Francisco Teodoro, 138, Vila Industrial.

Para acionar o atendimento a uma pessoa em situação de rua, o contato é o 156, central de atendimento da Prefeitura de Campinas.

Doações e propostas de voluntariado podem ser feitas diretamente ao Instituto Há Esperança.