A Prefeitura de Campinas abriu, na manhã desta terça-feira, 13 de outubro, a VIII Semana Municipal da Alimentação, dedicada, neste ano, ao combate ao desperdício de alimentos. No auditório das Centrais de Abastecimento de Campinas (Ceasa Campinas), o engenheiro agrônomo Emiliano Graziano, cofundador e diretor do Instituto Fome Zero, mostrou que quase um quinto dos alimentos disponíveis aos consumidores no mundo acaba no lixo de estabelecimentos comerciais, restaurantes e residências. Ele também fez um alerta: reduzir o desperdício é necessário, mas a fome tem uma causa anterior, a falta de renda para comprar alimentos de qualidade.
O tema desta edição é “Sistemas Alimentares: impacto do combate ao desperdício de alimentos”. O termo sistema alimentar abrange todo o percurso dos alimentos, desde a produção até o consumo e o descarte. A Semana é organizada pelo Departamento de Segurança Alimentar e Nutricional, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social, em referência ao Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro. Segurança alimentar e nutricional é o direito de todas as pessoas ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente.
A Ceasa Campinas e quatro instituições de ensino superior participaram da organização do evento com a Prefeitura: a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), a Universidade Paulista (Unip) e a DeVry Metrocamp. Além de Campinas, o evento reuniu especialistas de Hortolandia, Limeira, Sorocaba, Paulinia e Mogi Mirim.
A secretária de Desenvolvimento e Assistência Social, Vandecleya Moro, abriu o encontro recorrendo à história do Titanic. Segundo ela, os passageiros demoraram a acreditar que o navio afundaria, mesmo diante das evidências, e só perceberam a gravidade da situação quando a água já havia atingido os níveis mais altos, sem que houvesse botes suficientes ou tempo para escapar. Para a secretária, o combate à fome enfrenta uma situação semelhante. “Não adianta a gente achar que não vai acontecer, que vai ter alimento para todo mundo, que nunca vai faltar, ou fechar os olhos porque não falta na minha mesa e não preciso olhar para quem falta”, afirmou.
Vandecleya também preside a Câmara Intersecretarial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan), colegiado que articula as secretarias municipais envolvidas no tema. Ela lembrou que Campinas convive com a fome apesar de sua riqueza. “Nós estamos falando de um município que é extremamente rico, mas que tem os contrastes de insegurança alimentar”, disse. Insegurança alimentar é a falta de acesso regular a alimentos seguros e nutritivos, em graus que vão do leve ao grave. Para a secretária, o termo técnico suaviza a gravidade do problema: “Insegurança alimentar é o nome bonito para a fome, porque muitas famílias passam fome”.
A secretária destacou que a responsabilidade pelo enfrentamento da fome deve ser compartilhada entre famílias, sociedade civil e poder público. “É responsabilidade, sim, da família, da pessoa se organizar financeiramente, se for possível, mas é responsabilidade da sociedade civil. É responsabilidade do poder público propor políticas que alcancem essas famílias”, afirmou. Para ela, a Semana precisa contribuir para a disseminação do conhecimento. “Este momento não é apenas mais uma manhã e uma semana de segurança alimentar. Ele é como um arauto para dizer para todos nós: precisamos nos capacitar e levar esse conhecimento para que ele seja praticado, para que mais famílias sejam alcançadas e para que a gente possa, de fato e de verdade, erradicar a fome no Brasil.”
Perda e desperdício
Na palestra “A importância do combate ao desperdício nos Sistemas Alimentares”, Graziano começou distinguindo dois conceitos. A perda ocorre entre a colheita e a chegada ao varejo, durante o armazenamento, o transporte e o processamento. Já o desperdício corresponde aos alimentos descartados no fim da cadeia, em supermercados, feiras, restaurantes, escolas e residências.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) apresentados pelo palestrante, cerca de 13% dos alimentos produzidos no mundo se perdem depois da colheita e antes de chegar ao varejo, enquanto 19% dos alimentos disponíveis aos consumidores são desperdiçados. Somente em 2022, foram descartadas 1,05 bilhão de toneladas de alimentos. Desse total, 60% foram descartados nas residências, 28% em restaurantes e serviços de alimentação e 12% no comércio varejista.
O palestrante ressaltou que o desperdício doméstico não é a principal causa da fome. “Esses 60% são onde a nossa culpa dói mais, porque eu comprei o alimento, eu tirei o direito de alguém ter aquele alimento, eu estou jogando no lixo. Isso a gente é ensinado que não deve fazer, e não deve fazer mesmo. Mas não é aí que a gente vai resolver o problema da fome”, afirmou. “O nosso problema da fome está antes. A insegurança alimentar está antes.”
O desperdício que começa na roça
O diretor técnico-operacional da Ceasa Campinas, Claudinei Barbosa, chamou a atenção para as perdas que ocorrem antes mesmo de os alimentos chegarem ao entreposto. Segundo ele, entre 15% e 20% da produção não chegam a sair das propriedades rurais porque o mercado considera os produtos inadequados para a comercialização. Um dos principais critérios é o calibre, termo técnico utilizado para indicar o tamanho. “Muita gente ainda acha que um tomate miúdo não tem qualidade em face de um tomate graúdo, visualmente bonito”, afirmou.
Barbosa citou análises do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), órgão de pesquisa do Governo do Estado de São Paulo sediado em Campinas, para sustentar que o tamanho não altera, necessariamente, o valor nutricional do alimento. “Seja ele miúdo ou graúdo, o laudo será o mesmo.”
Ele classificou esse tipo de descarte como desperdício patrocinado. “Nós não podemos achar normal o desperdício patrocinado”, disse. Barbosa atribuiu parte do problema à publicidade, que influencia o consumidor a escolher os alimentos pela aparência. “Nós estamos sendo vítimas de um bombardeio de marketing de péssima qualidade orientativa, mas de excelente qualidade indutiva para comprar aquilo que nos põem à disposição, pagando um preço totalmente desproporcional”, criticou.
O prejuízo, segundo ele, recai sobre os produtores. “Cada vez que um produtor joga fora alguma coisa que produziu, depois do dispêndio de toda a sua energia, significa que o custo de produção dele foi elevado”, explicou. O custo é calculado sobre o volume efetivamente comercializado: “Tudo aquilo que foi desperdiçado não faz parte da conta”.
Na abertura do evento, Barbosa lembrou que a finalidade da Ceasa, definida em lei, é garantir o abastecimento de alimentos frescos, consumidos sem processamento, como frutas, legumes e verduras. Para ele, esse abastecimento interessa a toda a população, não apenas às pessoas em situação de vulnerabilidade. “Quando a gente fala em segurança alimentar, hoje, tradicionalmente, nós tratamos isso como sendo apenas e tão somente uma situação dos vulneráveis, mas não é. É de cada um de nós”, disse. “Comer simplesmente não significa se alimentar bem. Muita gente come, come mal e por isso tem problema de saúde.”
A fome começa na falta de renda
Graziano pediu ao público que saísse do encontro com uma ideia central. “A fome também é causada pela pobreza. Quem é pobre não consegue comprar comida de qualidade”, disse. Segundo dados da FAO apresentados pelo palestrante, entre 608 milhões e 696 milhões de pessoas passaram fome no mundo em 2025. Além disso, 2,69 bilhões de pessoas, o equivalente a 32,7% da população mundial, não têm renda suficiente para custear uma alimentação saudável. Frutas, legumes e verduras estão entre os alimentos com maiores índices de perda e, ao mesmo tempo, são fundamentais para uma dieta equilibrada.
A dificuldade de acesso também aparece no cotidiano das cidades, lembrou o palestrante. Ele citou os desertos alimentares, regiões onde é difícil encontrar alimentos frescos, e os pântanos alimentares, áreas com grande oferta de salgados, lanches e bebidas industrializadas, mas pouca disponibilidade de frutas e verduras. “Precisa ter sacolão, precisa ter feira livre, precisa ter Ceasa. Tudo isso é o poder público que oferece”, afirmou.
Do prato ao aterro
Graziano apresentou uma ordem de prioridades para enfrentar o problema. O primeiro passo é evitar a geração de excedentes, por meio de informação e capacitação. Em seguida, deve-se redirecionar o que sobrar para o consumo humano, trabalho realizado pelos bancos de alimentos. Os produtos impróprios para o consumo humano, mas adequados à alimentação animal, podem receber essa destinação. Os resíduos restantes podem ser transformados em composto orgânico, adubo obtido pela decomposição de matéria orgânica, ou aproveitados para a geração de energia, como o biogás. Somente o que não puder ser aproveitado deve seguir para o aterro sanitário. “Isso aqui é dinheiro. Você gastou dinheiro, gastou tempo produzindo. Ninguém quer jogar dinheiro fora”, disse.
O desperdício também contribui para as mudanças climáticas. Segundo dados atribuídos ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão científico da Organização das Nações Unidas (ONU), as perdas e o desperdício de alimentos respondem por 8% a 10% das emissões mundiais de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento do planeta. A produção dos alimentos que não foram consumidos ocupou 1,4 bilhão de hectares de terras agrícolas e demandou água, energia, fertilizantes e combustível.
Banco de alimentos como centro de inteligência
Graziano contou que trabalhou com a Ceasa nos anos 2000, durante a estruturação do banco de alimentos, e classificou a unidade de Campinas como “um banco de excelência”. O Banco Municipal de Alimentos funciona dentro da Ceasa desde 2003. A unidade recolhe alimentos próprios para consumo que seriam descartados, recebe produtos da agricultura familiar adquiridos pelo poder público e abastece cerca de 120 instituições, segundo o Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional.
No mesmo entreposto, atua o Instituto de Solidariedade para Programas de Alimentação (ISA), organização da sociedade civil que recolhe diariamente frutas, legumes e verduras doados pelos permissionários, comerciantes autorizados a atuar na Ceasa. São produtos que perderam valor comercial, mas permanecem próprios para consumo e são destinados a instituições e famílias cadastradas. Mais de 650 mil toneladas de alimentos passam pela Ceasa a cada ano.
Para o palestrante, o trabalho de um banco de alimentos vai além de recolher produtos que seriam descartados pelo comércio e encaminhá-los a entidades assistenciais. Também envolve educação alimentar, articulação com produtores, feiras e restaurantes e produção de dados. Ele citou o chef Matusalém Paracelso e as oficinas de aproveitamento integral dos alimentos, que ensinam a utilizar cascas, talos, folhas e sementes. “Esse trabalho de educação é muito importante”, destacou.
Graziano defendeu que o banco funcione também como um centro de inteligência. Ao trabalhar em Santo André, no ABC Paulista, ele acompanhou o caso de um produtor que errou a data da colheita e ficou com 420 caixas de alcachofra sem comprador nem refrigeração para armazená-las. Poucas entidades teriam condições de aproveitar tamanha quantidade do produto. A rede de bancos de alimentos da Grande São Paulo, formada por mais de cem bancos e organizações, dividiu a carga, de modo que cada entidade recebeu três ou quatro caixas. “Quando vem um pico de um único produto que você não dá conta na sua população atendida, você distribui com os parceiros. Isso é uma inteligência logística”, disse.
Cinco eixos e uma mesa só
O palestrante propôs cinco eixos de ação para Campinas: conhecer, por meio de um diagnóstico sobre onde, quanto e por que os alimentos se perdem; prevenir, com metas para feiras, escolas, hospitais, restaurantes e mercados; recuperar, com melhorias na logística e na refrigeração do Banco de Alimentos e do ISA; redistribuir, mediante a integração do banco com cozinhas, restaurantes populares e a rede de assistência social; e reciclar, com coleta específica e compostagem dos resíduos que não podem ser aproveitados para consumo.
Para ele, essas medidas dependem da atuação conjunta de diferentes setores. “Se eu não integrar a área de alimentação e abastecimento com a área de proteção social, produção de alimentos e combate aos resíduos, se eu não botar todo mundo na mesma mesa, nós vamos ficar enxugando gelo”, afirmou. Graziano também citou as hortas urbanas como uma possibilidade de fornecimento de alimentos para creches, hospitais e restaurantes populares.
Ele defendeu ainda a definição de metas e o acompanhamento de indicadores. “Você só vai fazer a gestão daquilo que você mede. Se você não conseguir medir, você não vai fazer a gestão daquilo”, disse. Entre os indicadores sugeridos estão a quantidade de toneladas recuperadas, o número de refeições equivalentes, estimativa de quantas refeições os alimentos doados podem proporcionar com base em seu valor energético, o volume destinado à compostagem e as emissões de gases de efeito estufa evitadas.
O palestrante apresentou experiências de três cidades estrangeiras. Nova York separa resíduos alimentares para compostagem e distribui o adubo produzido a moradores, escolas e jardins comunitários. Em Gante, na Bélgica, o programa Foodsavers recolhe excedentes de supermercados e distribuidores, encaminha os produtos a organizações sociais e emprega pessoas com dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Nos dois primeiros anos, foram redistribuídas mais de mil toneladas de alimentos. Seul, na Coreia do Sul, cobra pelo peso dos resíduos alimentares descartados e, segundo os dados apresentados, reduziu em 24% a geração diária desse tipo de resíduo desde 2013.
Campinas conta com um Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional para o período de 2026 a 2029, elaborado sob a coordenação da Caisan, com a participação do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Comsea), colegiado formado por representantes do poder público e da sociedade civil que acompanha a política de segurança alimentar.
A programação prosseguiu com a mesa-redonda “Atuação de Bancos de Alimentos”, que apresentou experiências de municípios da região, seguida de uma visita ao Banco Municipal de Alimentos e ao ISA.
A Semana continua na quinta-feira, 15 de outubro, com o último encontro da Capacitação em Segurança Alimentar e Nutricional, no plenarinho do Paço Municipal. O tema será a Educação Alimentar e Nutricional, conjunto de ações voltadas à orientação da população para a adoção de hábitos alimentares saudáveis. Na sexta-feira, 16, será celebrado o Dia Mundial da Alimentação.
