Servidora da Cultura escreve crônica em homenagem aos 252 anos de Campinas
A bibliotecária, gestora cultural e servidora da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Dandewara Pereira, escreveu uma crônica em homenagem a Campinas, para celebrar os 252 anos da cidade, comemorados no dia 14 de julho. O texto, intitulado “Campinas, Terra Preta”, propõe um olhar sensível sobre a história, a identidade e a construção coletiva do município.
Na narrativa, a autora resgata memórias pessoais e coletivas para destacar a contribuição da população negra na formação de Campinas, valorizando personagens históricos, lideranças culturais e mulheres que ajudaram a transformar a cidade durante gerações. A crônica também convida à reflexão sobre pertencimento, diversidade, justiça social e reconhecimento da ancestralidade como parte essencial da identidade campineira.
Confira, a seguir, a íntegra da crônica “Campinas, Terra Preta”, escrita por Dandewara Pereira em homenagem aos 252 anos de Campinas.
Campinas, Terra Preta
Há cidades que apenas existem no mapa. Outras moram dentro da gente.
Campinas mora em mim.
Talvez porque eu tenha nascido aqui. Talvez porque meus primeiros passos tenham encontrado as ruas desta cidade. Talvez porque, antes mesmo de compreender o significado da palavra pertencimento, eu já pertencesse a esta terra.
Hoje, quando Campinas celebra seus 252 anos, eu não consigo enxergá-la apenas pelos edifícios que se multiplicam, pelos parques, pelas avenidas ou pelos números que a colocam entre os maiores polos tecnológicos e científicos do país.
Eu a enxergo pela memória.
Pelas histórias que insistem em permanecer vivas.
Gosto de imaginar Campinas como uma menina. Curiosa, cheia de sonhos, aprendendo a caminhar. O tempo passou, e essa menina cresceu. Tornou-se mulher. E eu ouso dizer: tornou-se uma mulher preta.
Porque há uma negritude que pulsa em cada pedaço desta cidade.
Uma negritude que nem sempre foi reconhecida, mas que nunca deixou de existir.
Campinas conheceu a riqueza e conheceu a dor. Viveu períodos de prosperidade, mas também carregou profundas feridas sociais. Foi marcada pela escravidão, pelas desigualdades e pelos silêncios impostos à população negra. Sofreu. Cambaleou. Precisou parar muitas vezes para reorganizar suas estruturas.
Mas fez o que tantas mulheres pretas faz todos os dias: reinventou-se.
Renasceu.
Como uma Fênix que transforma as cinzas em recomeço.
Por isso, quando alguém me pergunta quem é Campinas, eu respondo sem hesitar:
Campinas é terra preta.
É a terra onde nasceram ou floresceram tantas histórias que ajudaram a construir esta cidade.
É terra de Carlos Gomes e Francisco Glicério.
É também terra de Mestre Tito, que fez de Campinas sua morada e ajudou a fortalecer a cultura popular.
É terra de Marcília Gama, Edna Lourenço, Cleusa Silva e Célia Santos.
É terra das Joanas, das Alessandras, das Marcelas, das Janaínas, das incontáveis Marias.
Mulheres que, muitas vezes, sem ocupar as manchetes dos jornais ou os livros de História, sustentaram famílias, educaram gerações, organizaram comunidades e fizeram desta cidade um lugar mais humano.
Campinas também é feita da coragem de mulheres como Laudelina de Campos Melo, que transformou a luta das trabalhadoras domésticas em um movimento de dignidade e direitos.
É feita da força de Mara Bispo, Mãe Corajacy, Luzia Maria Pereira, Deborah, Mercedes e de tantas outras lideranças que escolheram Campinas para fincar raízes e escrever seus nomes na história desta cidade.
Campinas é um polo cultural.
É um polo científico.
É referência em educação e tecnologia.
Mas seria injusto falar de sua grandeza sem reconhecer os braços negros que ajudaram a construi-la, os intelectuais negros que ampliaram seus horizontes, os artistas, os mestres da cultura popular, as ialorixás, os professores, os bibliotecários, os trabalhadores, as mães, os pais e os jovens que continuam escrevendo novos capítulos dessa história.
Eu olho para tudo isso com orgulho.
Porque também sou uma mulher preta nascida nesta terra preta.
Carrego comigo a responsabilidade de honrar quem veio antes de mim e abriu caminhos que hoje me permitem ocupar espaços de decisão, de cultura e de transformação social.
Meu sonho é simples e, ao mesmo tempo, imenso.
Quero viver em uma Campinas onde a população negra tenha seus direitos plenamente garantidos. Onde nossas crianças cresçam conhecendo sua história. Onde nossas bibliotecas contemplem nossas vozes. Onde nossa cultura seja celebrada todos os dias, e não apenas em datas comemorativas.
Quero uma Campinas que reconheça sua ancestralidade como parte indispensável de sua identidade.
E, sempre que vejo as andorinhas desenhando o céu desta cidade, lembro-me de um detalhe que me faz sorrir.
As andorinhas também são pretas.
Voam livres.
Voltam todos os anos.
Como a memória.
Como a ancestralidade.
Como a esperança.
Talvez seja esse o maior ensinamento que Campinas nos oferece aos seus 252 anos: uma cidade só conhece verdadeiramente o próprio futuro quando aprende a abraçar todas as histórias que moldaram o seu passado.
Parabéns, Campinas.
Que teus próximos séculos sejam construídos com mais justiça, mais igualdade e mais reconhecimento.
Porque teu futuro será ainda mais bonito quando todos souberem, sem medo de afirmar:
Campinas é, e sempre será, uma terra preta.
Dandewara Pereira
Bibliotecária, gestora cultural, mediadora de leitura e defensora das bibliotecas como espaços de memória, diversidade e transformação social.
