Mão Amiga forma 273 pessoas e amplia cursos para população em situação de rua
Marcelo Alexsandro Aregazzoni, 43 anos, chegou a Campinas vindo de Hortolândia com um plano claro. Ele soube, por um amigo, que a Prefeitura mantinha um programa para pessoas em situação de rua que queriam voltar ao mercado de trabalho. Antes mesmo de cruzar a cidade, ele já estava decidido: iria diretamente ao Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, Centro POP Sares II, para pedir informações sobre o Mão Amiga.
“Eu cheguei aqui em Campinas e fui para o Samim (albergue municipal). Aí conversei com o assistente social Mário e expliquei que eu queria a oportunidade de voltar ao mercado de trabalho e ter uma vida mais estável. Aí ele me deu a força de ir lá para o Santa Dulce”, contou Marcelo. Ele entrou no programa a partir do abrigo Santa Dulce dos Pobres. Está há sete meses no Mão Amiga. Já fez cursos de eletricista instalador, empreendedorismo, pintura e revestimento. Agora aprende jardinagem e paisagismo.
O Programa Parceiros da Cidade: Mão Amiga completa, em 2026, dez anos de funcionamento em Campinas. O programa foi criado para promover a cidadania e a reinserção social da população em situação de rua por meio da formação profissional. Desde a primeira turma, em 2016, já formou 273 pessoas.
O número não é apenas uma marca histórica. Ele sintetiza uma aposta que a Prefeitura de Campinas faz há uma década: a saída da situação de rua passa, entre outros fatores, pela possibilidade concreta de ingresso ou reingresso no mundo do trabalho. Essa possibilidade precisa ser construída com tempo, acompanhamento e qualificação real.
Os participantes, chamados de bolsistas, são indicados pelos serviços da rede socioassistencial municipal. Eles passam por processo seletivo antes de ingressar no programa. Ao longo da formação, recebem aulas teóricas e técnicas, capacitação prática e ações de fortalecimento pessoal voltadas ao preparo para o mercado de trabalho. A bolsa equivale a aproximadamente um salário mínimo.
O programa é intersetorial e integra quatro secretarias municipais. A Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social coordena o programa. A Secretaria Municipal de Educação viabiliza os cursos. A Secretaria Municipal do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável recebe os bolsistas para as atividades práticas de jardinagem. A Secretaria Municipal de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas ajuda no processo de inserção no mercado de trabalho.
A grade de cursos evoluiu ao longo dos dez anos. Em 2016, a primeira turma aprendeu apenas jardinagem e paisagismo. Ano a ano, novas áreas foram incorporadas: hidráulica, auxiliar de veterinária, eletricista instalador, montagem e manutenção de celulares e computadores, finanças pessoais e pintura de parede. A turma de 2026 é a mais diversificada da história do programa. Ela reúne cinco formações simultâneas: jardinagem e paisagismo, empreendedorismo, eletricista instalador, costura criativa e técnicas de revestimento em pisos e azulejos.
A ampliação não é apenas quantitativa. Ela reflete um aprendizado acumulado sobre o perfil das pessoas atendidas, que têm trajetórias muito diversas. Marcelo, por exemplo, tem 15 anos de experiência como açougueiro e conhecimentos em informática. Para ele, o curso de eletricista instalador dialogou diretamente com sua formação anterior. “Entra um pouquinho na minha área, que é a de programação, informática. A parte elétrica só deu uma reformulada”, disse.
Joselito Divino Dias, 49 anos, teve um caminho diferente. Natural de Piracicaba, perdeu a mãe em 2013 e ficou sem moradia. Ele chegou a Campinas em busca de apoio, passou por abrigos e fez tratamento de saúde. Quando soube do Mão Amiga, queria entrar desde o início, mas ainda não cumpria os dois anos de residência em Campinas exigidos pelo processo seletivo.
“Eu já estava querendo entrar nesse projeto desde o começo, quando cheguei aqui em Campinas”, contou Joselito. Hoje ele está na turma 11, há cinco meses. Faz jardinagem, eletricista instalador e revestimento. Ele já conhecia a área de pisos e azulejos, que aprendeu com o tio. Para ele, o programa também é uma questão de certificação. “Estou rememorando e quero pegar o certificado também.”
