Dentro dos Centros POP: o lugar onde quem não tem endereço encontra acolhimento
Os portões do número 603 da rua José Paulino se abrem às 8h em ponto, de segunda a sexta. A movimentação começa cedo. Homens e mulheres em situação de rua, vindos de diferentes pontos da cidade, formam um fluxo constante que atravessa a entrada com familiaridade. Há olhares atentos, passos ligeiros e sorrisos discretos entre aqueles que já conhecem bem o caminho até o banheiro, o café, o núcleo de inclusão digital, a biblioteca, entre outros cômodos do sobrado. O Centro POP Sares II, o prédio mais amplo entre os dois Centros POP que Campinas mantém no coração do Centro, tem uma rotina de acolhimento. Ali, higiene e dignidade andam juntas. Ali é possível tomar banho, trocar de roupa, almoçar e até resolver pendências com a documentação.
O Sares I funciona com igual intensidade na rua Regente Feijó, a poucas quadras dali. O espaço, também voltado exclusivamente ao atendimento da população em situação de rua, oferece escuta, orientação e acolhimento. Esses locais são espaços em que pessoas sem moradia não são apenas atendidas, mas são cuidadas, nomeadas e escutadas com respeito.
Histórias tristes e de esperança se cruzam pelos corredores dos Centros POP. Há quem chegue buscando um RG para voltar para casa ou conseguir outros documentos. Há quem só queira descansar um pouco da rua. E há quem encontre ali, depois de anos sem endereço fixo, o primeiro passo para retornar à vida civil com alguma autonomia. A cidade pulsa do lado de fora. Mas ali dentro, com a equipe de servidores, entre um café servido com calma e uma escuta atenta, há um ambiente de respeito e dignidade.
“Os Centros POP são portas abertas todos os dias para quem mais precisa ser visto e escutado”, afirmou a secretária municipal de Desenvolvimento e Assistência Social, Vandecleya Moro. “Nosso objetivo é garantir mais que atendimento: é oferecer um espaço onde a dignidade e o respeito sejam a base de qualquer recomeço.”
Esse foi o caso, por exemplo, de Genivaldo Ferreira Souza, de 57 anos. Desde 2013 ele vivia pelas ruas de Campinas. Deixou a família na Bahia e vivia em sofrimento psíquico. A rede socioassistencial de saúde e assistência social do município o acolheu na cidade durante todo esse tempo. Há poucos meses, Genivaldo, com a saúde debilitada e acolhido pelo Hospital Ouro Verde, foi finalmente convencido, pela família e pela rede assistencial, a reencontrar-se com seus familiares.
O retorno foi viabilizado por meio do programa Recâmbio, da Prefeitura, após um processo de articulação entre os Centros POP e a rede de saúde. Genivaldo foi acolhido, acompanhado e, enfim, reconduzido ao convívio com seus familiares no povoado de Juerana, município de Caravelas. A história dele resume o que muitas vezes passa despercebido. Por trás de cada atendimento está a possibilidade concreta de reconstrução de vínculos, autonomia e dignidade.