Formada por músicos autistas, banda TEAfonia do Instituto Anelo faz show no próximo dia 26
April 20, 2026
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A banda TEAfonia, formada por sete músicos autistas atendidos pelo Anelo — organização que oferece formação musical gratuita há 25 anos no distrito do Campo Grande, em Campinas (SP) — se apresentará no próximo dia 26, às 9h30, na sede da entidade. O show contará também com cantores, cantoras e músicos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou que possuam vínculos familiares com pessoas neuroatípicas. O projeto conta com apoio de divulgação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura de Campinas.
Além da preparar essa apresentação, os alunos estão em estúdio gravando uma composição de nome “TEAfonia”, uma obra autoral que estará disponível em breve no Youtube do Anelo. A canção é em alusão ao Abril Azul, movimento voltado à conscientização sobre o autismo.
A ideia de uma formação com músicos atípicos surgiu no início de 2026, depois que Marcelo Louback, que é saxofonista, flautista, compositor, arranjador e produtor musical, recebeu aos 48 anos o diagnóstico tardio de TEA, suporte 1. É dele a autoria da composição “TEAfonia”.
Louback, o professor
A chegada de Louback ao Anelo deu-se em 2018, quando veio para integrar a Orquestra Anelo. Hoje, ele também faz parte do Anelo 6teto, ambos grupos artísticos ligados ao Instituto. Integra, ainda, a Banda Sinfônica de Nova Odessa “Professor Gunars Tiss” e a Banda Municipal de Americana “Monsenhor Nazareno Maggi”.
Com o Anelo 6teto, em 2022, Louback foi premiado na categoria Melhor Música com a composição “Baionado” no 1º Festival de Música de Jundiaí. Também é vencedor na categoria Música Instrumental, com o frevo instrumental moderno “Sem Perder Tempo”, no Festival de Música 100 anos de Rádio no Brasil, realizado pela Rádio MEC e Rádio Nacional, emissoras geridas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), do governo federal. Com a TEAfonia, buscou criar algo que fosse mais sonoro e harmonicamente rico. “Pensei em uma peça que transitasse entre o erudito e o popular, com elementos jazzísticos”, explica.
Isolado na adolescência e sentindo-se deslocado, Louback recebeu o alerta sobre seu diagnóstico em 2024, vindo do renomado saxofonista Ademir Junior — também autista nível 1. A busca por atendimento especializado, porém, só ocorreu um ano mais tarde. “Quando recebi o laudo, não foi libertador; não está sendo fácil”, confessa. Louback, conta que agora compreende o termo ‘notas Loubaquinas’, usado por colegas para descrever seu estilo: “Eram notas diferentes, que fugiam da mesmice.”
Hoje, tem a ajuda da esposa Denise Ribeiro, que é psicanalista. “Ela faz o trabalho que ninguém vê, porque ela é terapeuta e me ajuda muito na lapidação da alma, no contexto social e ainda me confronta e me motiva”, diz Louback.
Cinco músicos e uma musicista, os aprendizes
Formada por Boris Wilson (violino), Murilo José Teixeira (piano), Matheus Cuelbas (contrabaixo), Ygor Melo (bateria), Ygor Pereira (percussão) e Eduarda Santos (piano), a TEAfonia é composta por jovens entre 14 e 26 anos que têm em comum, além da paixão pela música, o diagnóstico de autismo, com diferentes níveis de suporte – 1, 2 e 3. Hoje, o Anelo tem 21 alunos laudados e outros ainda em investigação médica.
Murilo, de 17 anos, recebeu o diagnóstico de autismo em 2015, mas só tomou conhecimento dele quando tinha 13 anos. “Meus pais me deram todo o suporte e foi meu pai que me levou até o Anelo, quando eu tinha dez anos.” Começou fazendo aulas de teclado, por recomendação de uma terapeuta ocupacional, e agora participa das aulas de práticas musicais.
“A TEAfonia é muito legal porque o Louback é muito experiente, é um grande instrumentista, um professor que admiro”, conta Murilo. “Ele nos dá muitas dicas, especialmente sobre improvisação.” Acrescenta que, mesmo que todo mundo esteja “um pouquinho em páginas diferentes de um mesmo livro”, sendo uns mais adiantados e outros iniciantes, considerando-se no nível intermediário, os ensaios são alegres e inspiradores. “A gente consegue se organizar mesmo tendo nossas diferenças e, ao mesmo tempo, sendo tão parecidos.”
A agente de saúde Neiva Santos, de 48 anos, é mãe de Eduarda, a Duda, de 17 anos, autista nível 2 de suporte. “A música sempre foi o hiperfoco dela. Ela expressa os seus sentimentos através da música”, conta. Por isso, Neiva lembra da felicidade sentida quando Duda teve a sua inscrição selecionada pelo Anelo em 2022. “O Instituto foi um divisor de águas, porque a equipe é muito inclusiva e empática e isso a ajudou muito na socialização, no desenvolvimento de confiança e no aprendizado musical, que é de excelência.”
Para Neiva, a criação da banda é desafiadora e esplêndida. “Cada um tem o seu jeitinho e as suas dificuldades. O lindo é que, quando entram na música, eles vencem todos esses desafios, dificuldades e tocam muito, com excelência, e mostram que eles são capazes. Ali, eles dão apoio um ao outro, sendo um ombro amigo”, diz.
Mas acrescenta que é preciso deixar de romantizar o TEA. “Algumas pessoas tratam os autistas como inteligentes e anjos azuis, mas gostaria que a sociedade tivesse um olhar mais amplo, porque cada um deles, independentemente do nível de suporte, sofre muito lutando pelas dificuldades de interação social e até pelas comorbidades, em alguns casos”, fala Neiva.
Convidados
Além de alguns integrantes da TEAfonia que farão apresentações solo, em duo ou em trio, o show do dia 26 contará com a participação de musicistas, músicos, cantoras e cantores com TEA ou que possuam vínculos familiares com pessoas com desenvolvimento atípico. Dois deles são a violinista Alline Ribeiro, de 32 anos, e o fundador do Instituto, Luccas Soares, de 46 anos.
“A ideia central é dar protagonismo aos alunos/músicos no espectro, mostrando suas potências no campo da música e abrindo espaço para que se expressem através da arte, que muitas vezes pode ser também uma poderosa forma de comunicação, até mais acessível do que a linguagem verbal”, explica Alline, responsável pela produção do show e autista de nível 1 de suporte. Segundo ela, apesar das dificuldades, o autoconhecimento tem proporcionado mais suporte, a possibilidade de ter mais qualidade de vida e relações mais saudáveis.
“Para mim, o diagnóstico tardio tem muitos lados. Há o sentimento de finalmente compreender e dar nome às coisas. Permitiu que eu me respeite e me ame como sou.”, conta Alline.
“Episódios da infância e da adolescência, assim como medos, confusões e dores, passam a fazer sentido. Também sinto gratidão por pessoas que, mesmo sem saber, tornaram minha vida mais leve — especialmente minha mãe e minha avó Cida, que acolheram com carinho e paciência muitas demandas da minha infância, e o Anelo, que sempre foi um ambiente acolhedor e me ajudou a desenvolver habilidades que eu não tinha”, enfatiza.
Soares aponta que o Anelo, desde sempre, leva a inclusão muito a sério. “Não posso negar que depois do nascimento dos meus filhos, sendo um deles autista, aumentou muito a minha responsabilidade e o olhar mais apurado com a inclusão”, conta. Por isso, sempre busc uma inclusão real, sem romantização, mas com muito amor, respeito e cuidado.
Confira os integrantes da Banda TEAfonia do Anelo
Boris Wilson (violino)
Eduarda Gonçalves Sena dos Santos (piano)
Marcelo Louback (flauta)
Matheus Cuelbas de Moura (contrabaixo)
Murilo José Teixeira (teclado)
Ygor Daniel da Conceição Pereira (percussão)
Ygor Daniel da Conceição Pereira (percussão)
Serviço
Show da Banda TEAfonia
Dia: 26 de abril
Horário: 9h30 às 11h
Local: Instituto Anelo
Endereço: Rua Vicente de Marchi, 718, no Jardim Florence, em Campinas
Entrada: gratuita e aberta ao público