Família acolhedora: entre o amor e a despedida, a história de Aline em Campinas

No quarto pequeno, uma luminária gira devagar e projeta estrelas no teto. Um menino de cinco anos fecha os olhos com um ursinho batizado de José no colo, enquanto a tia Lili, Aline Santos, faz carinho e conta uma história. Lá fora, Campinas segue seu ritmo de cidade grande. Aqui dentro, por um instante, o mundo cabe em uma cama de solteiro e em um abraço.
 
Aline tem 40 anos, é solteira, não tem filhos biológicos e trabalha há quase duas décadas como educadora. Desde 2022, ela também é do serviço família acolhedora, uma das 14 cadastradas no Sapeca, o serviço municipal de acolhimento familiar de Campinas, cidade de 1,3 milhão de habitantes e com PIB entre os maiores do país. 
 
A história começa com uma conversa informal entre amigas, em um dia comum de 2016. O assunto era família, filhos e adoção, aquele tipo de conversa que as pessoas têm sem saber que estão mudando uma vida. “Por que você não é família acolhedora?”, perguntou a amiga.
 
Aline não sabia o que era. Quando soube que não era adoção, que era temporário e que era cuidar e amar sem precisar de um papel definitivo, sentiu algo que ela descreve com precisão quase física: “Foi como uma flecha no meu coração. Explodiu.” Ela pesquisou, leu e ruminou. Em janeiro de 2020, estava decidida. Então veio a pandemia. O projeto voltou à gaveta.
 
Em 2022, o acaso costurou o que a vontade havia adiado. Uma família acolhedora apareceu na escola onde Aline trabalha para deixar uma criança. A coordenadora estava de férias. Ela precisou atender. Em menos de dois minutos de conversa, o projeto saiu da gaveta para sempre. Aquela história a convenceu de vez que precisava entrar no serviço Família Acolhedora.
 
Três crianças, três primeiros dias
 
O serviço de Família Acolhedora é uma modalidade de acolhimento provisório para crianças e adolescentes afastados de suas famílias por decisão judicial, em situações de risco, negligência e violência. Diferentemente do abrigo institucional, a criança vive em um ambiente familiar real, com atenção individualizada, rotina e afeto, enquanto o caso é encaminhado pela Vara da Infância. O objetivo central é a reintegração: o retorno à família de origem, à família extensa ou, quando nenhuma dessas vias é possível, o encaminhamento para adoção.
 
“Campinas tem uma trajetória importante no acolhimento familiar, e histórias como essa ajudam a mostrar à sociedade que existem muitas formas de transformar vidas. Acolher temporariamente é um ato de responsabilidade social e de compromisso com a infância”, afirma Vandecleya Moro, secretária de Desenvolvimento e Assistência Social.
 
Aline fez o curso de capacitação de dois meses, foi avaliada pela equipe técnica do Sapeca e declarou seu perfil: crianças a partir de três anos. Um mês depois, chegou o primeiro menino. “Você vê uma foto e o amor já está lá”, ela diz. “Você pega a criança e fala: é meu. Mas não é meu.”
 
Os três acolhidos chegaram com pouca bagagem. O primeiro e o segundo vieram com uma sacolinha de mercado e três pecinhas de roupa, algumas grandes demais para o corpo que carregavam. Aline guarda as camisetinhas daquele primeiro dia em um varalzinho afetivo que percorre o corredor de casa. São três camisetas. São três histórias.
 
O primeiro tinha três anos, quase quatro. Ele pôs no chão a pedagogia de Aline, construída em 20 anos de escola. “Eu achava que sabia lidar com criança. Mas lá ele era aluno. Aqui ele era ‘filho’.” Ele veio com fralda, chupeta e dentinhos cariados. Ficou quase um ano. Depois, foi para a irmã mais velha, da família extensa. Hoje, Aline recebe foto dele toda semana, fazendo a lição do primeiro ano.
 
O segundo era bebê: tinha um ano e cinco meses. Estava fora do perfil que Aline havia declarado, mas os abrigos estavam superlotados e havia doença circulando. Ela se desafiou. “Quando chegou, me apaixonei pelo rostinho.” Ela o matriculou na creche perto de casa. Ficou três meses. Ainda hoje, vai lá dormir às vezes, porque a família quis manter o contato. Ele ainda a chama de mãe.
 
O terceiro tem cinco anos e está com Aline há 30 dias. Chegou sem falar com adultos e evacuando todos os dias na calça, não por descuido, mas por emoções que o corpo já não sabia conter. 
 
Em três meses no abrigo, isso nunca havia parado. Em 30 dias com Aline, aconteceu uma vez.
 
José e a escavadeira
 
O ursinho ganhou o nome de José porque a criança quis assim. Ele vai à academia, senta à mesa na hora do almoço e dorme abraçado todas as noites, enquanto a luminária projeta estrelas.“Tia, lá na casa que eu estava, ninguém fazia carinho”, disse o menino, em um daqueles momentos em que as crianças falam sem saber o tamanho do que estão dizendo. Aline ouviu. E fez carinho.
 
Para a questão do banheiro, ela criou um calendário ilustrado com uma promessa ao final: cinco cocôs na privada, uma escavadeira. O brinquedo ficou exposto na caixa, dentro do banheiro, como um farol. O menino preencheu cada quadradinho com orgulho. No dia em que ganhou, filmou tudo. “Quando eu ganhar a escavadeira, quando é que eu ganho o carrinho de controle remoto?”, perguntou logo depois. Aline sorriu. “Trinta vezes.”