Campinas lança programa voltado ao enfrentamento da violência contra mulheres evangélicas

Campinas deu um passo importante no enfrentamento à violência contra a mulher com o lançamento do programa “Igreja pela Vida das Mulheres”, na noite desta terça-feira, 28 de abril, no Teatro do Centro de Convivência Cultural de Campinas. A iniciativa é voltada à prevenção e ao enfrentamento da violência contra a mulher em ambientes religiosos, com foco nas comunidades evangélicas.

Com o teatro cheio, o evento reuniu lideranças religiosas, autoridades e representantes do sistema de Justiça e do poder público. Mais de 100 pastores estavam no teatro, acompanhados de famílias e membros das igrejas.  

O programa é resultado de uma construção coletiva, com a formação de uma comissão que reúne o Ministério Público, a Prefeitura de Campinas e lideranças religiosas.

Durante o lançamento, foi formalizado um pacto com as igrejas para a implementação do programa nas comunidades. A adesão representa um compromisso das lideranças em atuar de forma ativa no acolhimento, na orientação e no encaminhamento adequado de mulheres em situação de violência.

O prefeito de Campinas, Dário Saadi, lembrou que as mulheres evangélicas confiam muito nas lideranças religiosas e por isso a importância da capacitação para que possam acolher aquelas que são vítimas de violência doméstica. “Tivemos uma adesão muito importante e agradeço a todos que trabalharam para que chegássemos a esse momento. Tenho certeza de que em cada igreja aqui presente e naquelas que ainda conhecerão esse programa se criará uma semente que vai poder ajudar muito a sociedade nesta luta para acabar com a violência contra a mulher”.  

Papel das igrejas

A criação do programa parte de dados que evidenciam a relevância do tema dentro das comunidades religiosas. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha aponta que 42,7% das mulheres que relataram ter sofrido violência por parceiro íntimo ao longo da vida se declaram evangélicas. Entre as mulheres que sofreram violência nos últimos 12 meses, 69% das evangélicas buscaram apoio na igreja, segundo o DataSenado.

Esse cenário reforça o papel das igrejas como uma das principais portas de entrada para o acolhimento dessas mulheres, muitas vezes antes mesmo da procura por serviços públicos especializados.

A apresentação sobre o programa foi feita em conjunto pela promotora de Justiça, Cristiane Hillal, e pelo teólogo Livan Chiroma, coordenador da Aliança LAB (Laboratório de Pesquisas e Inteligência Missional).  

A promotora destacou que diariamente mulheres vítimas de violência recorrem ao Ministério Público e que há uma “cifra oculta” de casos não denunciados, motivados pelo medo e pela culpabilização.  
 

Acolhimento e proteção

Segundo Cristiane, a ideia do programa surgiu a partir de uma situação vivenciada pelo MP. Uma mulher evangélica que sofria violência doméstica havia dez anos buscou ajuda porque queria que sua igreja a acolhesse e protegesse sua família. A partir disso, o MP buscou a Prefeitura e formou um grupo com pastores e pastoras para a construção da iniciativa, que é inédita. “Esse programa só vai dar certo se houver a participação de todos. Ninguém consegue mudar essa realidade sozinho. Tenho certeza de que seremos exemplo para muitas cidades e para o Brasil todo”, disse ao público.  
 

Apoio às mulheres

O teólogo Livan Chiroma apresentou dados sobre a população evangélica no Brasil e em Campinas. Ele destacou o papel da igreja como rede de apoio principal às mulheres, muitas vezes acima da família. O teólogo deu um recado importante dirigindo-se aos religiosos: “Uma má e rasa leitura da Bíblia leva ao feminicídio, ao ‘redpill’ e ao patriarcalismo. Uma boa e profunda leitura da Bíblia leva ao bem-estar social, à cultura de paz e ao bem viver na cidade”.  

No evento, a secretária de Políticas para as Mulheres, Alessandra Hermann, também lembrou que o programa dialoga com as ações realizadas pela pasta. “Temos o propósito de fazer com que as mulheres nunca mais fiquem sozinhas e a igreja também possui esse papel”, completou.  

Também participaram do lançamento do programa a primeira-dama de Campinas, Maria Giovana Fortunato; a comandante da Guarda Municipal, Maria de Lourdes Soares; os vereadores Débora Palermo e Guilherme Teixeira; Simone Rodrigues Horta Gomes – Promotora de Justiça da 35ª PJ – Violência Doméstica (Campinas); Ana Carolina Bacchi – Delegada de Defesa da Mulher (DDM); Padre Antônio Alves – Pároco de Paróquia S. Marcos – o evangelista.
 

Entrega da cartilha

Um dos eixos do programa é a cartilha “Fé que protege, amor que não fere”. A primeira unidade foi entregue ao prefeito pela secretária de Comunicação, Rose Guglielminetti. Os exemplares serão distribuídos às igrejas em formato físico e digital.  
 

Ações do programa

O programa está estruturado em ações práticas que buscam qualificar o acolhimento e transformar a atuação das igrejas diante de casos de violência. São as seguintes:

– Letramento sobre violência contra mulheres e crianças  
– Criação de protocolo com fluxo de encaminhamento de denúncias recebidas por lideranças religiosas  
– Acolhimento de vítimas em grupos capacitados  
– Realização de rodas de conversa com homens, com foco na prevenção  
– Elaboração de cartilha direcionada à mulher evangélica  
– Produção de vídeo institucional sobre o combate à violência contra a mulher  

As medidas têm como objetivo não apenas orientar, mas estabelecer procedimentos claros e responsáveis dentro das comunidades religiosas.

Compromisso coletivo

O pacto com as igrejas foi lido em conjunto por pastores e pastoras presentes ao evento. A proposta é que as igrejas se consolidem como espaços seguros, preparados para oferecer escuta qualificada e atuar de forma integrada com a rede de proteção. O programa reforça a importância do engajamento das lideranças religiosas como agentes de transformação social, capazes de contribuir diretamente para a interrupção do ciclo de violência que afeta mulheres, crianças e famílias.

Segundo o pastor Carlos Eduardo Araújo Guimarães, primeiro vice-presidente da Assembleia de Deus, Ministério Belém, o programa não apenas conscientiza, mas dá ferramentas aos pastores para orientar as mulheres que sofrem violência, “para que saibam direcioná-las e como trabalhar em parceria com o poder pública para auxiliá-las”.

Participante da comissão que elaborou o programa, a pastora da Igreja Genuína, Cristiane Silva, e fundadora do projeto Talita Cumi, também destacou a importância do programa e de atuar na prevenção contra a violência. “Abraçamos essa causa e seremos assertivos para encaminhar as mulheres vítimas de violência aos serviços de acolhimento. A igreja precisa estar preparada. O evangelho não pode justificar o abuso”, disse.  

Ações integradas ampliam proteção às mulheres

A Prefeitura de Campinas lançou neste ano um pacote de medidas para fortalecer o enfrentamento à violência contra as mulheres. Entre as medidas estão as seguintes:  

– Inovação e tecnologia: desenvolvimento de ferramenta com inteligência artificial, via sandbox regulatório, para identificar riscos de violência.  
– Assistência social: redução do prazo para concessão do auxílio-moradia (de 30 para 15 dias), com benefício mensal de R$ 994,31 por até seis meses, podendo chegar a 12.  
– Educação e juventude: formação de profissionais, ações pedagógicas sobre equidade e prevenção, além de atividades com estudantes e debates sobre masculinidades.  
– Saúde: capacitação de 3,2 mil profissionais da atenção primária para identificação precoce de casos de violência de gênero.  
– Segurança: criação de grupo executivo com forças policiais para análise de dados, monitoramento e operações integradas.  
– Cultura e turismo: orientações para prevenção ao assédio em grandes eventos públicos.  
– Rede de apoio: fortalecimento e ampliação de serviços já existentes, como os abrigos Sara-M e Amigo, o Ceamo, a Sala Lilás, o Hospital da Mulher e a Casa da Gestante, além de iniciativas como o Botão SOS Gama, Botão Bela, Guarda Amigo da Mulher e o desembarque fora do horário. Também integram a rede programas de autonomia e suporte, como o Renda Campinas, o Grupo Mulheres Empreendedoras e ações de planejamento familiar.