Atendimento humanizado no Centro POP Sares II possibilita reencontro de mãe e filha
A mesa estava cor-de-rosa. Os talheres estavam caprichados. A xícara tinha um coração desenhado. Havia pipoca. Diana Souza Matos entrou no Centro POP Sares II na terça-feira, 31 de março, em situação de rua. Marcas no corpo contavam uma história que ela ainda não conseguia pôr em palavras. Ela entrou mesmo sem vaga, porque alguém, na portaria, percebeu que algo não estava bem e decidiu que isso importava mais que o protocolo.
Horas depois, ela estava sentada num cinema improvisado. Estava com os pés na cadeira, comia pipoca, assistia a um filme sobre mulheres e chorava. “Cheguei ao Centro POP desesperada, com medo do mundo, com medo de todos”, contou, já em Piracicaba, com a voz ainda carregada de assombro pelo que viveu. “Tive um dia muito feliz. Foi um dia em que me senti muito especial. Eu me senti importante, sabe?”, ao lembrar daquela terça-feira.
O encerramento do Mês da Mulher acontecia na unidade quando Diana chegou. A agente de ação social identificou que ela precisava de acolhimento. O primeiro gesto foi simples: encaminhá-la para o banho. Era preciso devolver a dignidade antes de qualquer formulário.
Mesmo assim, Diana ficou. Participou da atividade. O espaço, as trocas e a escuta a sensibilizaram. Em algum momento, o choro veio. Como ela mesma descreveu depois, não era só dor. Era também o início de algo que começava a se reorganizar dentro dela.
Depois que a atividade terminou, a agente de ação social Edneia Cristina dos Santos Brito encontrou Diana embaixo da escada. Aquilo poderia ter sido interpretado como uma infração. Não foi.”A minha amiga Edneia me enxergou com outros olhos”, diria Diana mais tarde. “Ela podia ter me mandado embora. Mas não fez isso. Ela me ajudou e conversou com a psicóloga.”
A psicóloga Marta Savana ouviu Diana. E acreditou nela. “Minha história parecia muito louca, muito doida”, conta Diana. “Mas acreditaram em mim.” A partir daí, o trabalho foi técnico e humano ao mesmo tempo, como precisa ser quando uma vida está em jogo. A equipe acionou a rede de apoio do município de origem de Diana. Fez um contato. Um vínculo que estava rompido voltou a respirar. A mãe atendeu. E disse que queria a filha de volta.
O retorno de Diana foi viabilizado pelo Programa Recâmbio, iniciativa da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social de Campinas. O programa garante o retorno seguro e humanizado de pessoas em situação de vulnerabilidade às suas cidades de origem, com custeio da passagem e articulação da rede necessária para a viagem.
Na manhã de quarta-feira, 1º de abril, Diana pegou o ônibus. A mãe a esperava na rodoviária de Piracicaba. As duas fizeram uma foto dentro do carro. Encostaram a cabeça uma na outra e sorriram para o celular, com aquele sorriso que só aparece quando a gente acredita que ainda vai dar certo.
“Ó, gente, brigadão, do fundo do coração”, diz Diana no vídeo, com a voz misturada de alívio e alegria. “Vocês são gente de verdade, são mulheres de verdade. Não deixaram que me faltasse comida e se preocuparam com a minha alimentação. Muito obrigada.”
Em mensagem enviada ao Centro Pop Sares II, ela completou: “Tudo isso foi por causa de vocês. Vocês me tiraram da rua e me colocaram dentro da minha casa, no seio da minha mãe, que é uma pessoa que cuida muito de mim. No tempo em que estive aí precisando de ajuda, fui bem tratada, almocei, tomei café da manhã, me diverti com o cinema maravilhoso e fui tratada como rainha. Vou ser eternamente grata a vocês. E a minha mãe agradece de todo o coração. Se não fossem vocês, a filha dela não estaria aqui em casa.”
O Centro POP II existe para acolher pessoas em situação de rua, oferecer serviços, encaminhamentos e referências. Mas o que aconteceu com Diana não estava em nenhum manual. Estava no olhar da vigilância, que percebeu que algo não estava bem. Estava na mão da agente que encontrou uma mulher com medo embaixo de uma escada e escolheu ver o medo, e não a infração. Estava na escuta da psicóloga que acreditou numa história que parecia louca.
Às vezes, o trabalho social se mede em relatórios. Às vezes, ele se mede numa selfie dentro de um carro, com duas cabeças encostadas e dois sorrisos que sabem o que custaram.
Os Centros POP Sares
Os Centros POP Sares I e II em Campinas constituem o principal eixo de atendimento especializado à população em situação de rua. São vinculados à Proteção Social Especial de Média Complexidade do SUAS (Sistema Único de Assistência Social).
As unidades oferecem:
Acolhida e escuta qualificada (ambos);
Atendimento individualizado com planos de acompanhamento (ambos);
Garantia de higiene, alimentação e acesso a documentação (Centro POP Sares II);
Atividades socioeducativas, culturais e de fortalecimento de vínculos (Centro POP Sares II);
Encaminhamentos à rede de serviços e políticas públicas (ambos).
Dados de atendimento:
2025: 11.703 atendimentos (média de 1.132 por mês).
2024: 13.996 atendimentos (média de 1.166 por mês);
Unidades em Campinas
Centro POP Sares I
Rua Regente Feijó, 824 – Centro
Telefones: (19) 3231-4155 / 3236-4059
Centro POP Sares II
Rua José Paulino, 603 – Centro
Telefones: (19) 3235-2281 / 3235-1918