Pessoas em situação de rua fazem pipas para falar de direitos da infância no Centro POP Sares II

Anúncios

Pessoas atendidas pelo Centro POP Sares II participaram, nesta quinta-feira, 8 de outubro, de uma roda de conversa sobre os direitos de crianças e adolescentes e confeccionaram pipas com frases, palavras e mensagens sobre o tema. Parte das pipas passou a compor um painel no refeitório da unidade.

A atividade teve como objetivo promover uma reflexão crítica sobre a garantia de direitos na infância e o enfrentamento às violações desses direitos, em um espaço de diálogo, escuta e troca de experiências.

O Centro POP Sares II é uma das duas unidades da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social voltadas ao atendimento de pessoas em situação de rua em Campinas. Sares é a sigla de Serviço de Acolhimento e de Referenciamento Social.

Da internação aos direitos

A roda de conversa percorreu a evolução dos direitos da criança e do adolescente no Brasil. O ponto de partida foi a chamada Doutrina da Situação Irregular, concepção que tratava a criança pobre, abandonada ou autora de infração como um problema a ser resolvido pelo Estado, em geral por meio da internação em instituições. Esse período ficou marcado pela Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem), no plano federal, e pelas unidades da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), nos estados.

O percurso chegou à Doutrina da Proteção Integral, consolidada pela Constituição Federal de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990. Por essa concepção, toda criança e todo adolescente são sujeitos de direitos, e a proteção deles é dever compartilhado pela família, pela sociedade e pelo Estado.

Mais do que conhecer a trajetória histórica, o grupo foi convidado a refletir sobre essa responsabilidade compartilhada. A conversa tratou do papel de cada um na construção de uma rede de proteção capaz de garantir direitos e oportunidades. Rede de proteção é o nome dado ao conjunto de serviços e instituições que atuam na defesa de crianças e adolescentes.

A roda de conversa também discutiu o familismo, a tendência de atribuir apenas à família a responsabilidade pelo cuidado e pela proteção de seus membros. O grupo questionou o hábito de responsabilizar individualmente as famílias que vivem em situação de vulnerabilidade, sem levar em conta que cada trajetória é atravessada por condições sociais, econômicas, culturais e históricas.

Infância revisitada

Em seguida, os participantes foram convidados a lembrar da própria infância. Surgiram histórias, lembranças e reflexões sobre um tempo em que muitas práticas eram consideradas naturais ou socialmente aceitas e que hoje são reconhecidas como violações de direitos. O trabalho infantil foi um dos exemplos discutidos.

A partir das memórias dos participantes, a conversa mostrou como aquilo que uma geração viveu como normal pode ser compreendido de outra maneira ao longo do tempo. A sociedade se transforma, os direitos avançam e muda também o olhar sobre o que precisa ser protegido.

A atividade partiu da ideia de que a infância de cada pessoa é única, mas nunca está separada da realidade social em que foi vivida. Para sintetizar essa ideia, a conversa recorreu a uma frase da escritora Lya Luft, do livro “Perdas e ganhos”: “A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias”. 

Foi esse chão que o grupo revisitou: as lembranças, as brincadeiras, as dificuldades, os afetos e aquilo que ficou marcado. A reflexão propôs ampliar o olhar, do individual para o coletivo, e compreender a história de cada um sem perder de vista o contexto mais amplo, já que cada história pessoal também é parte de uma história social.

Pipas e músicas

Depois da roda de conversa, os participantes confeccionaram as próprias pipas. O brinquedo foi escolhido como metáfora pedagógica da proteção integral. Assim como a pipa precisa de todas as suas partes para voar, cada uma com uma função e nenhuma suficiente sozinha, a proteção e o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes dependem da união e do equilíbrio entre diferentes pessoas, instituições e políticas públicas.

Na leitura proposta ao grupo, ninguém protege sozinho: Estado, família, sociedade, comunidade e rede de proteção precisam estar conectados para que os direitos previstos em lei sejam cumpridos.

Cada participante preencheu a pipa com frases, palavras, mensagens e direitos que considerava importantes. Além das palavras sobre direitos, as pipas passaram a registrar histórias de vida.

Durante a confecção, cada um pôde escolher músicas que remetiam à própria infância. As canções despertaram lembranças, sentimentos e memórias afetivas, e o ambiente foi tomado por música, dança, conversa e interação.

Para a equipe do Centro POP Sares II, falar sobre direitos, nesse encontro, também significou valorizar histórias, reconhecer trajetórias e abrir espaço para as memórias afetivas dos participantes. 

Algumas das pipas ganharam um novo lugar e passaram a fazer parte de um painel no refeitório, onde ficaram registradas as mensagens produzidas pelo grupo.

“Proteger a infância é uma responsabilidade de toda a sociedade. Ao trazer esse debate para o Centro POP, valorizamos as experiências das pessoas atendidas e mostramos que a garantia de direitos também se constrói com diálogo, escuta e respeito às histórias de vida”, afirmou Vandecleya Moro, secretária de Desenvolvimento e Assistência Social..

A atividade terminou com café e bolinho de chuva. O cheiro, o sabor e a convivência também fizeram parte da proposta. Segundo a equipe, o fortalecimento de vínculos não acontece somente nas grandes discussões. Essa reconstrução de laços de confiança e de convivência, um dos objetivos do trabalho com pessoas em situação de rua, acontece também ao redor de uma mesa, em uma conversa, em uma risada, em uma música compartilhada ou na lembrança da infância.

A mensagem que ficou do encontro, de acordo com a equipe, é a de que toda criança tem direito a uma infância protegida, digna e feliz, e de que garantir esse direito é uma responsabilidade coletiva. “Quando todos seguram a linha, a infância pode ganhar asas”, disse Maria Aparecida Teixeira Régis, a Cidinha, coordenadora do Centro POP Sares II. 

Os Centros POP Sares

Os Centros POP Sares I e II são as unidades públicas de referência para pessoas em situação de rua em Campinas. Nelas, quem vive nas ruas encontra espaço de convivência, apoio para necessidades básicas e acompanhamento técnico, em articulação com a rede de saúde, a documentação civil e os benefícios sociais.

Serviço

Sares I
 Rua Regente Feijó, 824, Centro
 (19) 3231-4155 / 3236-4059
 8h às 17h, dias úteis

Sares II
 Rua José Paulino, 603, Centro
 (19) 3235-2281 / 3235-1918
 8h às 17h, dias úteis

Sair da versão mobile