Cemitério da Saudade celebra 145 anos como guardião da memória de Campinas
Entre alamedas silenciosas, esculturas centenárias e histórias que atravessam gerações, o Cemitério da Saudade, em Campinas, completa neste sábado, 7 de fevereiro, 145 anos, reafirmando seu papel como um dos mais importantes espaços de memória, arte e identidade da cidade. Fundado em 1880 e inaugurado oficialmente em 1881, o local vai muito além de sua função original: é um museu a céu aberto e um retrato vivo da história campineira.
Conhecido inicialmente como Cemitério do Fundão, por estar localizado na antiga Fazenda do Fundão, o espaço surgiu para substituir o antigo cemitério municipal da Vila Industrial, atendendo às necessidades sanitárias da época e acompanhando o crescimento urbano de Campinas, impulsionado pelo ciclo do café.
Tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural (Condepacc), em 2003, o Cemitério da Saudade preserva um valioso acervo de arte tumular, arquitetura e simbologia, que ajuda a contar a história social, econômica e cultural da cidade. Para o presidente da Setec, Enrique Lerena, o local é um patrimônio que dialoga com o passado e o presente. “O Cemitério da Saudade é um espaço de respeito, mas também de memória e cultura. Cada túmulo, cada escultura e cada alameda contam um pouco da história de Campinas e das pessoas que ajudaram a construir a cidade”, afirma.
Arquitetura que traduz a história da cidade
O traçado original do cemitério chama atenção por um detalhe curioso: ele foi inspirado no mapa da cidade de Campinas da época, refletindo a organização urbana do século XIX. A arquitetura também se destaca pelas obras assinadas por nomes importantes, como Ramos de Azevedo, responsável pelo portal de entrada, pelo prédio administrativo e pelo necrotério, inaugurados em 1913.
As esculturas e jazigos, muitos deles produzidos por artistas de ascendência italiana, como Lélio Coluccini, Marcelino Velez e Nicola Del Picchio, transformam o espaço em uma galeria a céu aberto, com obras que expressam dor, fé, saudade e devoção.
Figuras históricas sepultadas no Cemitério
Ao longo de seus 145 anos, o Cemitério da Saudade se tornou local de sepultamento de personalidades que fazem parte da história de Campinas e do Brasil, como Francisco Glicério, Moraes Salles, Orozimbo Maia, Bento Quirino e o Barão Geraldo de Resende, além de ex-prefeitos e líderes políticos.
Devoção popular e memória coletiva
O espaço também abriga túmulos que despertam forte devoção popular, como o de Maria Jandira, falecida em 1934, os Três Anjinhos e o Toninho Escravo, além do Cruzeiro, instalado em 1910 em memória de um escravo. Esses pontos recebem, até hoje, visitantes que buscam graças, fazem promessas e mantêm viva a religiosidade popular.
Outro marco histórico é o Mausoléu dos Voluntários de 32, que homenageia os combatentes da Revolução Constitucionalista, reforçando o papel do cemitério como espaço de memória coletiva e cívica.
Preservação e valorização do patrimônio
Com cerca de dois milhões de sepultados, o Cemitério da Saudade segue preservando histórias e afetos. Segundo Lerena, a Setec tem investido na preservação do espaço e na valorização de seu papel cultural. “Cuidar do Cemitério da Saudade é também cuidar da história da cidade. É garantir que esse patrimônio continue sendo respeitado, visitado e reconhecido pelas futuras gerações”, destaca.
Localizado no bairro Swift, o cemitério mantém parte significativa de sua memória viva por meio de projetos de revitalização e visitas guiadas, atraindo não apenas familiares, mas também pesquisadores, estudantes e interessados em história, arte e arquitetura.