Formatura em Campinas simboliza novos caminhos para pessoas em situação de rua

Quinze pessoas em situação de rua concluíram nesta quarta-feira, 3 de junho, os cursos profissionalizantes oferecidos pelo Instituto Há Esperança em Campinas. A formatura da quinta turma aconteceu no período da tarde, no Clube dos Rotarianos de Campinas, no Cambuí. Os formandos se qualificaram em elétrica predial, confeitaria, barbearia e informática.

A formação combina teoria e prática e exige presença mínima de 70%. Em 2025, 75 pessoas em situação de rua concluíram os cursos do Instituto. Mais de 30% delas foram recolocadas no mercado formal de trabalho.

Os cursos são oferecidos na Casa da Cidadania, equipamento da Prefeitura de Campinas administrado pelo Instituto, e na Casa Esperança, espaço próprio da organização dedicado ao atendimento diurno de pessoas em situação de rua. Além das oficinas profissionalizantes, os dois espaços oferecem acolhimento, refeições, atividades culturais e acompanhamento social.

Para a secretária de Desenvolvimento e Assistência Social, Vandecleya Moro, o trabalho vai além da técnica. “Quando uma pessoa em situação de rua tem acesso à qualificação profissional, ao acompanhamento social e a uma rede de apoio, ela passa a enxergar novos caminhos. A formação técnica é importante, mas o resgate da autoestima e da confiança também é fundamental nesse processo”, afirmou.

William Azevedo de Souza, que coordena o atendimento à população em situação de rua na proteção social especial de média complexidade, acompanhou a entrega dos certificados. Esse nível da assistência social cuida de pessoas cujos vínculos familiares e comunitários foram rompidos ou fragilizados, mas que ainda mantêm algum convívio. A coordenação articula os serviços que acompanham essas pessoas no dia a dia.

William destacou a dificuldade que a população em situação de rua enfrenta para cumprir tarefas que, para a maioria, são corriqueiras. Manter uma rotina, chegar a um endereço fixo, guardar documentos, comparecer a todos os encontros de um curso: cada etapa exige um esforço que a vida na rua torna maior. Diante desse cenário, ele elogiou a disposição dos formandos, que concluíram a formação apesar de tudo o que a situação de rua impõe.

Marlene Feliciano de Oliveira, servidora que atua no cuidado à população em situação de rua há mais de 17 anos, também foi convidada para a cerimônia. Ela acompanha de perto a realidade de quem vive nas ruas, com todo o sofrimento que ela impõe, e disse que presenciar uma formatura como aquela é motivo de orgulho. Marlene parabenizou os formandos pela conquista.

Resgate da cidadania

No dia da formatura, Robson Teixeira Gondin, fundador do Instituto, pediu para sentar ao lado dos meninos da barbearia. Contou que tinha ido jantar com eles num restaurante de Campinas, na sexta-feira. O dono se aproximou da mesa, perguntou se estava tudo bem e sentou junto. Depois revelou o que poucos ali imaginavam: comera a mesma comida que eles comiam, dormira no albergue, usara droga, bebera. Um dia, alguém acreditou. Hoje é dono do restaurante, tem mais de 30 funcionários, casa e família.

“A palavra oportunidade é o que vocês estão tendo agora”, disse Robson aos formandos. “O privilégio de recomeçar é o dom que Deus dá pra vocês, e vocês têm que usar esse privilégio.”
A própria trajetória de Robson na instituição que fundou é o argumento vivo desse trabalho. Para ele, os cursos vão além da técnica. “Os cursos profissionalizantes, além de capacitar para o mercado de trabalho, mudam a autoestima de uma pessoa. É o resgate de uma cidadania. Muitos já tinham perdido isso”, afirmou.
 

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