Brinquedos doados por adultos em situação de rua criam ciclo de afeto no Centro Pop Sares II

É uma cena discreta, quase invisível para quem chega com pressa: um punhado de brinquedos dispostos num canto da recepção do Centro POP Sares II, entre vasos, cartazes e bancos de espera. Nada anuncia sua presença. Não há plaquinhas explicativas, nem campanha institucional. Os brinquedos simplesmente estão ali. E é justamente esse ‘simplesmente estar’ que torna tudo tão poderoso. 
 

Não se trata de uma doação programada, muito menos de um acervo organizado para atividades com crianças. A verdade é ainda mais surpreendente: os brinquedos foram colocados ali por adultos, homens e mulheres em situação de rua, frequentadores do próprio Centro. São eles que trazem. São eles que deixam. E, às vezes, também são eles que levam. 
 

“Esse tipo de gesto, tão simples e tão poderoso, mostra que o espaço realmente pertence a eles. Quando uma pessoa em situação de rua decide compartilhar algo afetivo, está dizendo, com esse ato, que se sente segura. E esse é o nosso maior objetivo: oferecer acolhimento com dignidade”, afirmou a secretária de Desenvolvimento e Assistência SocialVandecleya Moro.
 

“Esses brinquedinhos começaram a aparecer ali, na recepção, há cerca de dois meses. De repente estavam lá. Um dia tinham três, depois oito. Aí somem, aí voltam. Nunca desaparecem completamente”, conta Cidinha, como é conhecida Maria Aparecida Teixeira Régis, coordenadora do Centro POP. 
 

A primeira vez que ela percebeu o movimento foi ao se sentar para descansar, ao fim de um turno, e notar o pequeno altar de afeto se formando. “Na hora, me remeteu à infância. Pensei: isso aqui é memória. É lembrança. É vínculo.” Foi então que perguntou à equipe e aos usuários e soube: os brinquedos não são doados por instituições ou terceiros. São os próprios usuários que os trazem, espontaneamente. 
 

“É um gesto simbólico que fala de pertencimento. Eles deixam ali o que têm de mais lúdico, de mais afetivo. Talvez nem saibam dizer com palavras, mas estão dizendo com atos: ‘aqui me sinto seguro’”, afirma Cidinha, que, além de coordenadora, tem formação em psicanálise. Para ela, o gesto não é aleatório, é profundamente revelador. “É o reflexo do que o Centro POP está proporcionando: acolhimento, segurança, possibilidade de construir memórias novas ou resgatar antigas.” 
 

O mais curioso é que, ao contrário do que se poderia imaginar, os brinquedos não são intocáveis. Quem chega pode perguntar e, se quiser, pode levar. E leva. E depois devolve. Ou traz outro no lugar. “É um ciclo. Não tem regra. É como casa de avó: você sabe que pode deixar ali e vai estar lá amanhã. E se não estiver, tudo bem também. Porque o que vale é o gesto”, explica. 
 

A espontaneidade desse ritual (se é que pode ser chamado assim) talvez seja seu traço mais comovente. Não foi planejado, nem implantado por diretriz técnica. Brotou da convivência. Cresceu nas entrelinhas da política pública. É, como diz Cidinha, “uma forma de os usuários dizerem que se sentem parte, que reconhecem o espaço como casa”. 
 

“Quando a gente trabalha com pessoas em situação de rua, sabe que muitos têm laços rompidos há anos. Quando, nas atividades, a gente fala de infância, de família, eles se emocionam, se abrem. Os brinquedos têm a ver com isso. São uma tentativa de reconectar com algo bom que ficou lá atrás”, completa. 
 

Quem olha apressado talvez veja só um carrinho de plástico ou uma boneca encardida. Mas quem se demora (e escuta) pode enxergar mais: um gesto de cuidado entre pessoas que, ao longo da vida, tiveram quase tudo negado. Um resgate simbólico de algo anterior à perda. Uma forma de dizer: “eu existo, eu lembro, eu cuido”. 
 

E é nesse pequeno gesto (depositar um brinquedo, levar outro) que se encontra uma delicada lição: o acolhimento verdadeiro não se mede apenas por protocolos, mas também por aquilo que se permite florescer sem ser pedido. Uma lembrança da infância. Um ato de generosidade. “Uma recepção que acolhe até o silêncio”, concluiu Vandecleya. 
 

Os Centros POP Sares 
  

 Os Centros POP Sares I e II em Campinas constituem o principal eixo de atendimento especializado à população em situação de rua. São vinculados à Proteção Social Especial de Média Complexidade do SUAS (Sistema Único de Assistência Social). 
  

 As unidades oferecem: 
  

  •  Acolhida e escuta qualificada (ambos); 
      

  • Atendimento individualizado com planos de acompanhamento (ambos); 
     

  • Garantia de higiene, alimentação e acesso a documentação (Centro POP Sares II); 
     

  • Atividades socioeducativas, culturais e de fortalecimento de vínculos (Centro POP Sares II); 
     

  • Encaminhamentos à rede de serviços e políticas públicas (ambos). 
      

Dados de atendimento: 
  

  • 2024: 13.996 atendimentos (média de 1.166 por mês); 

  • 2025 (até ,outubro): 11.703 atendimentos (média de 1.170 por mês). 
      

Unidades em Campinas  

  • Centro POP Sares I 
    Rua Regente Feijó, 824 – Centro 
    Telefone: (19) 3231-4155 / 3236-4059  

  • Centro POP Sares II 
    Rua José Paulino, 603 – Centro 
    Telefone: (19) 3235-2281 / 3235-1918 

 

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