Empresa contrata 12 pessoas atendidas pela rede para população em situação de rua de Campinas

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Doze pessoas que estavam em situação de rua em Campinas foram contratadas para trabalhar na construção civil. Oito tiveram a carteira de trabalho assinada e quatro firmaram contrato. Todos já estão trabalhando.

A iniciativa partiu da empresa. A WKM Consultoria e Construção procurou o Instituto Há Esperança, organização que administra a Casa da Cidadania, equipamento da Prefeitura de Campinas voltado ao atendimento diurno de pessoas em situação de rua, e pediu a indicação de trabalhadores. Até o ano passado, o caminho era o inverso: era o Instituto que procurava empresas em busca de oportunidades.

Ninguém entrou pela porta dos fundos. Houve entrevista e processo de seleção, e o Instituto precisou providenciar novos documentos para parte do grupo antes do encaminhamento. Os contratados trabalham como pedreiros, azulejistas e ajudantes, em serviços de manutenção e reforma. Todos são homens.

Cinco dos 12 participaram de cursos profissionalizantes por meio da Casa da Cidadania. Os outros sete chegaram às vagas com a experiência profissional que já tinham. O dado contraria uma percepção comum sobre quem vive em situação de rua: em muitos casos, não falta ofício, mas documento, endereço e alguém disposto a chamar para uma entrevista.

“Quando uma empresa procura a rede para contratar, ela encurta um caminho que costuma ser longo. A qualificação e o acompanhamento social preparam a pessoa, mas quem fecha o percurso é a vaga, e a vaga depende de quem contrata”, afirmou Vandecleya Moro, secretária de Desenvolvimento e Assistência Social.

Caminhos diferentes até a vaga

Rafael Melo dos Santos já trabalhava como pedreiro e eletricista antes de chegar à Casa da Cidadania. Foi durante um almoço no espaço que soube da oportunidade de fazer um curso no Senai.

“Além de ser pedreiro, eu sou eletricista. Então fiz o curso mesmo para poder fazer uma reciclagem”, contou.

Depois da formação, Rafael foi encaminhado para uma das vagas abertas pela WKM, passou pelo processo seletivo e foi contratado como pedreiro.

“A Cidadania está me apoiando desde quando me deu um curso de recolocação no trabalho e, através disso, eu estou aqui”, afirmou. Para ele, a oportunidade representou uma mudança importante em sua trajetória.

Ao falar diretamente às empresas, Rafael resumiu o que espera de outros empregadores: “Dá uma chance. Eu acho que todo mundo precisa ter uma chance.”

Carlos Eduardo da Silva percorreu outro caminho. Ele foi encaminhado para trabalhar como auxiliar de pedreiro depois do contato com a equipe da Casa da Cidadania e com Robson Teixeira Gondim, fundador do Instituto Há Esperança.

Há 24 anos em situação de rua, Carlos vê no emprego a possibilidade de iniciar uma nova etapa.

“Eles ajudaram nós a arrumar um serviço, a nós sair da rua, dessa situação de rua, que eu estou já há 24 anos em situação de rua. Eu estou querendo essa oportunidade para mim, ver se eu consigo sair da rua agora”, afirmou.

Carlos trabalha em uma obra em Valinhos. A rotina começa pela manhã: ele sai do acolhimento, chega ao local de trabalho, toma café e inicia o expediente. Faz intervalo ao meio dia, retorna às 13h e encerra as atividades às 15h30.

“Está sendo muito ótimo na minha vida. Está sendo uma energia muito forte para mim e uma janela para conquistar os meus sonhos, os meus objetivos”, disse.

Os dois chegaram ao trabalho por trajetórias diferentes. Rafael já tinha duas profissões e aproveitou uma oportunidade de atualização profissional antes de participar da seleção. Carlos foi encaminhado diretamente para uma das vagas. Entre os 12 trabalhadores contratados, cinco participaram de cursos profissionalizantes por meio da Casa da Cidadania e sete já tinham experiência profissional anterior.

“Eu estava redondamente enganado”

Quem recebeu o grupo na obra foi Amarildo Oliveira, mestre de obras da WKM. Ele contou que nunca havia trabalhado com pessoas em situação de rua.

“Sou mestre de obras há muitos anos, mas eu nunca trabalhei com pessoas em situação de rua. É a primeira vez”, afirmou.

O que ele esperava encontrar era diferente do que viu na prática.

“Eu achava que essas pessoas que estão na rua não tinham condições de voltar ao mercado de trabalho. E eu estava redondamente enganado”, disse.

Amarildo não descreveu o processo como simples.

“É lógico que não é fácil. Tem correções para serem feitas”, afirmou.

Em seguida, contou o que mudou na convivência diária: “Aquilo que a gente pede, eles fazem. E quando não estão bem, eles vêm e falam com a gente. A gente cria laços que leva para o resto da vida.”

“O que eles precisam é de uma oportunidade. E eu fico feliz em saber que a empresa em que eu trabalho tem essa condição de dar essa oportunidade para eles”, declarou.

Depois da contratação

O acompanhamento não termina com a contratação. O Instituto mantém o atendimento aos trabalhadores durante três meses após o ingresso na empresa. Os 12 estão acolhidos no albergue O Verbo, e o deslocamento até a obra é feito com veículo e motorista do próprio Instituto.

“A contratação não encerra o atendimento. O acompanhamento nos primeiros meses é o que sustenta a permanência no emprego, porque voltar a ter horário, regra e convívio é um aprendizado que leva tempo”, afirmou Vandecleya.

A rede por trás do encaminhamento

A Casa da Cidadania fica na Rua Francisco Teodoro, 138, na Vila Industrial, Região Sul. É um serviço complementar da rede socioassistencial, ou seja, funciona ao lado dos equipamentos públicos, e não no lugar deles.

O Instituto Há Esperança assumiu a execução do serviço depois de participar de um processo de seleção aberto pela Prefeitura, com metas relacionadas a alimentação, banhos, atendimento e oficinas. O trabalho é cofinanciado: a maior parte dos recursos vem do orçamento municipal, e o restante é bancado pela organização.

Os encaminhamentos continuam partindo majoritariamente dos serviços públicos: o Serviço de Abordagem Social de Pessoas em Situação de Rua, responsável pelo contato nas ruas; os Centros POP, unidades de referência especializada; e o Samim, albergue municipal com 120 vagas.

“Entendo que é mais barato gerar oportunidade do que só gerar alimentação. Quando o poder público e o setor privado se aproximam, a mudança de vida de uma pessoa em situação de rua é certa”, afirmou Robson Teixeira Gondim.

Serviço

Instituto Há Esperança: Rua Central, 36, Jardim do Lago Continuação.

Para acionar o atendimento a uma pessoa em situação de rua, o contato é o 156, central de atendimento da Prefeitura de Campinas.

Empresas interessadas podem entrar em contato com o Instituto Há Esperança pelo telefone (19) 3235 3311, também disponível pelo WhatsApp.

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